quinta-feira, 24 de julho de 2008

Morte, Saudade, Coragem

Pessoas...

Já tem um tempo que não posto nada. Andei meio enrolada. Hoje abri o Orkut da minha prima e resolvi ver as fotos para matar a saudade da família que mora longe. Para a minha surpresa tinha a foto de uma menina com uma legenda que me chamou a atenção “É tão estranho, os bons morrem jovens Assim parece ser quando me lembro de você Que acabou indo embora, cedo demais [...]Só que você foi embora cedo demais Eu continuo aqui, meu trabalho e meus amigos E me lembro de você em dias assim dia de chuva, dia de sol E o que sinto eu não sei dizer [...]Vai com os anjos, vai em paz Era assim todo dia de tarde, a descoberta da amizade Até a próxima vez, é tão estranho Os bons morrem antes Me lembro de você e de tanta gente Que se foi cedo demais E cedo demais eu aprendi a ter tudo que sempre quis Só não aprendi a perder E eu, que tive um começo feliz Do resto eu não sei dizer Lembro das tardes que passamos juntos Não é sempre, mas eu sei Que você está bem agora Só que este ano o verão acabou Cedo demais....”

Foi impossível não lembrar das pessoas que eu também perdi... cedo demais. Algumas fazem muita falta, outras aprendi a conviver sem a presença física. A Thaís é a pessoa que mais lamento ter partido. Era mais que uma amiga, uma irmã. Dividíamos tudo! De segunda a sexta era a escola e os segredinhos; os finais de semana era a bagunça e os passeios. No dia que ela partiu lembro-me de chegar à capela, seu pai ter me abraçado e ter me perguntado o porquê da sua filha. Queria saber o motivo também. Ali não era eu, tio Marcus, tia Solange e Ana, éramos uma família. Nunca fui tratada como uma amiga, mas como uma Copelli. Na minha casa, ela não era mais uma amiguinha de escola. Era tão amada que minha irmã quando nasceu, dois anos depois do acidente, recebeu seu nome. Um pedaço do meu coração foi embora com ela.

A morte sempre se fez presente. Imagina como seria o mundo se ninguém falecesse? Mas as pessoas boas deveriam morrer tarde, dormindo em suas camas quentinhas e sem dor. A morte é muito dolorida para quem fica. A saudade, as recordações, os lugares, tudo pesa. O ser humano não sabe lidar com perdas e eu, confesso, também não sei. Ano passado fiquei seis meses cuidando do meu avô. Quantas vezes chorei ao lado de seu leito, vendo-o em coma e sem poder fazer nada. Dizia que o amava, mas a minha situação era de total impotência. Queria levá-lo para casa, tirá-lo dali, fechar cada escara. Eu não sabia que tinha tanta força. Eu conseguia fazê-lo sorrir sabendo que no fundo ele estava chorando... e eu também. Tudo era feito de pequenos momentos. Passear no hospital de cadeira de roda; colocar meu óculos escuros nele e brincar falando que ele iria pra rave comigo; chamá-lo de cachorrão e fingir que eu era a sua onça pintada; dar banho brincando de jogar água um no outro. Tentávamos mascarar uma situação insuportável. Ele sabia que era duro eu ir toda hora ao hospital e eu sabia o quanto ele não desejaria estar ali. Ele era o mais querido, porque lutava para viver. Não perdia a alegria. Quando recebemos a notícia de que ele tinha partido, fomos no CTI pegar a documentação e a equipe média estava enfileirada na entrada, todos chorando. Não tinha uma só pessoa que não estivesse com lágrimas nos olhos. A dor de perder um paciente tão velhinho, carinhoso, com tanta garra e tão carismático deu tristeza.. Não se sentia rebelde, brincava com todos e se esforçava. Quando entrou em coma natural, os médicos falaram que não tinha mais jeito. Ficamos arrasados. Mas três dias depois ele acordou e começou a bater palmas chamando o pessoal. Ninguém conseguiu acreditar naquela cena e a gente também não. Quando eu partir vou puxar a orelha do meu cachorrão, porque descansou e nem me levou para brincar com as cotias na Quinta da Boa Vista. Ele me levava lá quando eu era pequena, mas prometeu voltar lá comigo... essa dívida vai ficar pendente.

Às vezes fico personificando a morte. Ora é super animada, ora extremamente depressiva. Tem hora que a morte é bem-vinda, porque acaba o sofrimento do doente e o desgaste emocional da família, mas tem horas que ela é tão injusta. Leva com ela crianças e jovens. Tem gente que também não se cuida, procura-a. Beber e dirigir, correr de carro, não respeitar a sinalização, drogar até ter uma overdose, transar sem camisinha e acabar pegando uma doença sexualmente transmissível. Imagina o trabalho que ela tem! Deve ser exaustivo levar os enfermos e os que fazem arte por ai. Penso na vida também. Essas duas têm muito trabalho. São únicas, ninguém pode dividir o trabalho com elas. Quantos morrem e nascem por minuto no mundo?

Uma provoca o choro e a outra o riso... se completam de alguma forma...

6 comentários:

Mariana Domingues disse...

Que lindo Rê.....
mas eu sabia, sempre soubr que você é forte! Sempre te falei isso.
Queria ter podido estar ao seu lado, ao lado do vovô. Mas a Vida não me permitiu! Também já tive que encarar a partida de pessoas que amo. Mas tenho certeza de uma coisa, elas estão olhando por nós, sempre!

te amo mana....

beijo

Renata Ferretti disse...

É mana... são pessoas insubstituíveis. Fica a saudade, ficam as lembranças...
Eu queria ter pego o avião e ter ido te dar um abraço. Eu ia...
Eu sei que vc estava ao meu lado, sei que vc está ao meu lado sempre!!! Não importa que vc não esteja fisicamente, mas sei que seu coração está aqui, da mesma forma que o meu está ai com vc!!!
Te amo!!!

LadyRosyBrandão disse...

Nossa Re...vc disse td nas suas palavras!Aqla amiga foi uma pessoa muito importante para mim!Ela era q nem uma irmã para mim...Qnd recebi a noticia de ela tinha ido p junto de Deus eu tbm não aguentei e perguntei o pq?!Ela gostava tanto de viver, msm com tantos problemas de saude q tinha...Tinha um amor pela vida incrivel,q me fez rever certas coisas...Agradeço muito por td q ela me fez...E, assim como o tio, ela está lá em cima olhando por nós e sabendo q um dia iremos nos reecontrar para colocar as conversas em dia!

Mariana Domingues disse...

Eu sei maniha....mas como falei a Vida as vezes nos limita...meu coração está sempre junto de vc, sempre.
e m breve vamos encurtar essa distância física...pelo menos por um tempo!!!!!
te amo muito

Quadra disse...

rê, emocionante a descrição dos últimos momentos de seu avô. fiquei bastante comovido: com a atitude de seu avô, com sua força e com a equipe do hospital. que coisa! como simples gestos positivos transformam vidas.

acabei de postar um texto e logo depois vim direto ao seu blog dar uma espiada. nossa... tudo a ver! como não acredito em coincidencia, penso q, de alguma maneira, precisava ler seu "testemunho". às vezes não percebemos, mas nossas experiencias de vida fortalecem e encorajam muita gente.

posso dizer: agora sou o homem mais corajoso do mundo!

pra vc, um super beijo!

Quadra disse...

como assim "quase uma confissão o q escrevi"?!
vc e mari têm essa mania... de achar q não são confissões os textos q escrevem. mas lógico q são, me Deus! e digo mais: lindas! os textos q vcs escrevem são demais, tanto pelas historias como pelos fatos reais.

tirando sua dúvida: meu texto complementou o seu. doido isso, não?

beijo!